Um bate-papo com Lenine

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Lenine… Um gênio vivo!!!
Dia 13 de abril de 2013, ainda escrevendo pelo Blog Horizonte Vertical, fui recebido pela equipe extremamente profissional do Lenine, no SESC Vila Mariana, pra uma entrevista. Escrevi um roteiro de perguntas, e ao me sentar ao lado dele pra conversar, …o que era pra ser uma entrevista, acabou virando uma aula…de simplicidade, coragem, humildade e VIDA! Com certeza foi um momento mágico, ao lado de um grande mestre, com muuuuita história pra contar.

Perí: Lenine, qual a sua origem musical? Vc vem de uma família de músicos?

Lenine – Eu fui o primeiro que optei pelo caminho profissional, mas a música permeou minha vida.Tanto meu pai, como minha mãe e meus irmãos, todo mundo tocava algum instrumento, e mais…a gente tinha essa coisa de uma celebração,por intermédio da música, então vocie não tinha só que tocar as músicas que você gostava, voce tinha que ser escada pro outro.Cada um tinha um caderninho com as letras das canções que gostava mais de cantar e todo mundo tinha que dividir. Isso já me deu uma amplitude já lá no início, assim…por causa da comunhão pela música. Era o lance de se reunir pra cantar junto. Isso, sem querer, porque foi uma informação inconsciente até…que eu não retive na hora, eu retive depois, quando me deparei novamente com Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Ângela Maria…pensei: Conheço, conheço, conheço…aí que caiu essa ficaha poderosa, dessa formação, mas na época não, cara…era até mesmo por uma coisa de doutrina do meu pai. Ele é ateu e minha mãe cristã. Aí ele dizia o seguinte…que até os oito anos, ele não podia competir com o Édipo (risos), e que a contribuição dele era ínfima, mas a partir dos oito anos ele poderia ter uma contribuição mais efetiva. A primeira coisa que ele dizia era: Olha você vai todo domingo â igreja com sua mãe, porque a sua mãe acredita que é a melhor maneira de falar com o Divino, …, papai acha que a música é o melhor caminho….então, aos oito anos de idade a gente tinha a possibilidade de escolher…ou ir na missa com mamãe, ou ficar em casa com papai ouvindo música (risos)….mamãe perdeu todos os parceiros de igreja aos oito anos de idade…Mas naquela época todo o ritual da igreja era muito chato. Falado em Latin, as pessoas respondiam…uma coisa muito ritualizada…pra um garoto de seis , sete anos, aquela coisa Apostólica Romana…Tinha aquele ritual, uma hora e tanto..pra uma criança, cara…é um saco. Na verdade mau pai foi um “sacana”, (risos).

Perí: …aí você foi pra música…quais os momentos que você lembra, de mais dificuldade?

Lenine – Ah, foram muitos, foi um tempão de dificuldades…é rapaz, pra te ser sincero o mundo sorriu amarelo pra mim por um bom tempo (risos)…agora….é importante a gente não sorrir de volta. Porque foi o que aconteceu comigo…talvez eu te seja um exemplo muito bacana nesse sentido, porque pô! é…se tu acredita, se tu faz com empenho cara, se tu qué aprimorar a cada vez mais, se voce vai atrás do conhecimento, se voce entende isso e aprofunda isso, bicho…num tem volta…é sedimentar o que você vai fazendo … e vai fazendo outro e vai fazendo outro…e isso vai se estabelecendo , uma certa excelência no fazer. Aí depois você descobre que sem querer descobriu uma maneira de se expressar, que é sua, que as pessoas identificam como sua…

Perí: Do G.O.G. ao Richard Boná…todo mundo tá na sua…

Lenine – É…isso só prova que música pra mim é uma coisa sem adjetivos…tenho horror a adjetivos. É Música, ponto, ou melhor, vários pontos, reticências…(risos) A música, e reticências, pô…sabe…e isso se se reafirma na minha vida, o tempo todo pra caramba..quer dizer…eu tenho parcerias diversas, cara…tenho o maior orgulho de ser parceiro do Frejat, do Gabriel Pensador….e sou parceiro musical de Ivan Lins, de Francis Hime…

Perí: E teve o Cambaio também, né? (Peça Teatral muntada em 2002, com autoria de João e Adriana Falcão, e música/direção musical de Chico Buarque, Edu Lobo e Lenine)

Lenine – Chico e Edu…então assim…só corrobora tudo isso…se você faz com empenho, o resultado vem. Eu acho que vem. A minha trajetória é uma prova disso.

Perí: Eu me sinto parte das pessoas influenciadas por esse tipo de história….

Lenine – Que bom cara…teve um momento que o Mílton (Nascimento) fez isso pra mim…devo estar pra você, assim como ele esteve e ainda está pra mim…

Perí- Sério?…

Lenine – Ééé, véio… O clube da esquina …teve um momento de eu dizer assim…O que que é isso…eu dizia assim, meu deus!!! Dá pra se fazer isso!! E era uma loucura porque até os dezessete anos eu era Rock’n Roll radical, velho…

Perí- Tem rock no seu som…

Lenine – Também, tem tudo…mas tem essa coisa…os meus Beatles foram uma mistura de Led Zepellin e The police, então aquilo definiu o desejo de fazer música, aí quando eu vi Clube da Esquina a primeira vez, eu pensei …cara, da pra fazer aqui…..o que que é isso??!!!..(risos)…quer dizer, a coisa de produção, eu achava … eu comprava discos importados….o acetato que usavam no Brasil era de péééssima qualidade. Gramatura caidassa…eu botava a agulha e era mais ruído do que…Tinha alguma coisa errada.Eu não sabia se era falta de tecnologia, ou o sucateamento que acontecia naquele momento…eles pegavam o disco e reaproveitavam……botavam no forno novamente. Num pode, isso é uma heresia…Então eu tive a coisa da música e tive principalmente essa curiosidade no que diz respeito âs tecnologias e ferramentas â disposição da gente pra fazer música.I sso até hoje, não mudou. Sabe? Eu quero saber se isso pode trazer algum benefício..eu quero usar esse lance aí cara…e isso ser um estímulo.

Perí: Eu acabei de ver sua passagem de som…é uma coisa tão “alien” que eu até perdi um pouco o rumo da conversa…escolhi por não seguir um roteiro,… é uma conversa mais sobre a vida, não exatamente sobre um CD específico…

Lenine – (Risos)…Sei, sei…é sobre entrega mesmo…o desejo, eu sempre falo disso…Eu tive uma parceira que se apresentou pra mim muito cedo. Eu chamo ela de “a Senhora Estranheza”). Eu era bem novinho, ela chegou no meu ouvido e…a vida toda eu a ouço, mas não ouço muito. Porque também ela poderia, como em muitos casos, descolá-lo da realidade, e é fácil você não ser compreendido.Então essa parceira foi foda e continua sendo uma permanente parceira, porque ela fala e eu pego alí cinquenta por cento do que ela fala. (risos). Quando ela radicaliza muito , eu digo…não, tu tá errada. (risos).

Perí: A coisa do 5.1, do Surround…essa preocupação tão inovadora com cada show?

Lenine – A coisa do Surround, do 5.1. surge á partir dessa gravação cara… A gente brinca com o som o tempo todo cara, de traz pra frente de frente pra traz, a gente brinca com o eixo o tempo todo.

Perí: Se você tivesse em um formato você não ia chegar…

Lenine – Não ia chegar…foi acertado essa coisa…vamos testar, não ter bateria nem percussão.

Perí: Precisa de uma equipe muito boa.

Lenine – Siiim…porque a gente pensa…como vamos formatar isso? O desejo de fazer é uma coisa, a novidade que isso carregava era outra, pô.A gente se trancou, passamos um mês, num puta dum lugar… testando…e isso nos levou também a fazer uma arquitetura anterior a cada show, levando em consideração o espaço onde a gente se apresenta. Como a gente vai distribuir as caixas?……
(risos)


Perí: Lenine, eu sei que o show tá pra começar…Muito obrigado pela atenção com a gente essa noite! Parabéns pelo PUUUTA SHOW que você se preocupa em fazer e pela influência que você já exerceu em tanta gente mundo afora….

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